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O lado sombrio de viver no exterior: niguém fala, mas ele existe.

Eu sempre fui reconhecida como uma pessoa otimista. E, com razão. Se não fosse por esta característica, eu não teria chegado até aqui. Para alguém que nasceu e cresceu numa cidade minúscula do interior da Bahia, com menos de 32,000 mil habitantes, onde minhas amigas mais próximas engravidaram aos 14 anos. Não é de surpreender que ninguém acreditasse, quando eu e minha irmã falava em voz alta que um dia viveríamos no exterior — até minha própria família dava gargalhadas de nosso projeto de vida ambicioso.

Contudo, não foi somente o meu otimismo que me trouxe até aqui, me impedindo de seguir o mesmo destino das minhas amigas de infância. Foi muito dedicação aos estudos. Lembro-me muito bem dos meus 12 anos, por não ter nada melhor para fazer nas férias escolares, eu passava o meu tempo a decorar todos os verbos irregulares de inglês, mesmo sem saber como pronunciá-los.

Eu sabia que um dia esse conhecimento me seria útil. A verdade é que eu não tinha nenhuma ideia que os meus sonhos de viajar, trabalhar e morar no exterior se tornariam em realidade. Muitas vezes, eu duvidava. Porém, quando cada um desses sonhos me parecia inalcançável, o que eu fazia era abrir os meus livros e continuar com os meus estudos, porque eu tinha plena consciência que somente eu era responsável pelo meu futuro.

Meu ponto de virada

Com o passar dos anos, eu dava um passo na direção dos meus objetivos. O primeiro foi me mudar para São Paulo, uma cidade grande e cheia de oportunidades. Foi lá que consegui meu primeiro emprego aos 16 anos, como jovem aprendiz. Aos 17 anos, consegui uma bolsa para estudar Jornalismo na FAPCOM, que marca o ponto de virada na minha vida. Eu poderia falar sem parar sobre o poder da educação na vida de alguém, mas acho que é bastante óbvio. Todas as realizações a seguir, eu as atribuo a esta conquista.

Dois anos depois, eu comecei um estágio na Sociedade de Pediatria de São Paulo. Ao terminá-lo, fui contratada e a minha jornada nesta empresa durou seis anos. Em 2014, ano em que nenhum brasileiro gosta de falar, fiz minha primeira viagem ao exterior como voluntária na África do Sul. Levei dois anos para pagar esta viagem, pois não ganhava muito e qualquer viagem internacional necessita de planejamento financeiro. Assim, foi aos 23 anos que viajei de avião pela primeira vez; fiquei com tanto medo que a minha prima teve que segurar a minha mão durante toda a viagem. (Hoje, eu nem percebo quando o avião decola).

Minha experiência na SPSP foi, de longe, a experiência de trabalho mais linda e duradoura que já tive. Porém, ao voltar da África do Sul, comecei a planejar a minha viagem para a Irlanda. De novo, levei mais dois anos para pagá-la. Em 2016, juntei toda a minha coragem e minhas economias e parti para Dublin, ansiando por um intercâmbio de 6 meses.

Minha estadia na Irlanda durou três anos e meio. A razão é que, uma vez no exterior, minhas ambições cresceram. Falar bem inglês era o primeiro objetivo, mas depois veio viajar pela europa, conhecer outras culturas, trabalhar na minha área no exterior, fazer um mestrado…

Então fiz tudo o que pude para seguir em frente. Aceitei todos os empregos encontrados. Comecei como Au Pair. Depois trabalhei como faxineira, atendente de mercado, garçonete, babá e a lista continua. Diversas vezes, eu trabalhei mais de 14 horas por dia. Mesmo exausta eu persistia, porque sabia que cada dinheiro extra me permitiria progredir. E, de fato, permitiu.

Após 2 anos de trabalho, eu tive finalmente a chance de trabalhar na minha área (ver mais aqui). No final do meu contrato, eu decidi mudar de país objetivo para fazer um mestrado, conhecer outra cultura e aprender um novo idioma. E a França foi a minha escolha.

Então, qual é o lado negativo de morar no exterior?

Nem tudo é um jardim de flores. Hoje quero falar sobre um assunto “osso duro de roer” que eu o denomino de “o lado mais sombrio de viver no exterior’, a forma com que nós “estrangeiros” somos percebidos e tratados. Principalmente os que são de originários de países em desenvolvimento. Os recrutadores não nos apreciam (lamento dizer). Como todos podem ver, minha jornada até aqui não foi nada fácil, mesmo tendo gozado de momentos maravilhosos, preciso falar o que tenho observado.

Somos bem-vindos quando se trata de aceitar subempregos e para fazer um curso de nível superior, desde que possamos pagar. Na maioria das universidades europeias, temos de pagar mais do que o dobro que os estudantes europeus. Agora quando se trata de conseguir um emprego com nosso diploma, a história muda um pouco. De repente, não falamos bem a língua local, nossa experiência de trabalho não conta, ou nossa formação educacional é insuficiente. Pior ainda é que, como raramente recebemos uma resposta do processo seletivo, fica difícil saber qual é decisão certa a tomar.

Falo isso através de minha experiência e da dos meus amigos internacionais. Basta contar quantos não conseguiram nem mesmo um estágio na França. Se é realmente um país internacional, por que os estudantes internacionais não conseguem um estágio ou emprego?

Novamente, é mais fácil colocar a culpa em nós. Dizer que não somos bons o suficiente, não temos experiência ou que não falamos francês ou inglês corretamente. No entanto, isso é verdade? Na minha opinião, isso não é válido. Pelo menos, nem sempre.

Quando morei em Dublin, eu tive a chance de conhecer muitos italianos, croatas e espanhóis que tinham todos ótimos empregos, mas que não falavam inglês fluentemente. Muitos não possuíam nem mesmo o nível intermediário; um grande exemplo disso era o meu ex-namorado. Apesar de termos a mesma formação acadêmica e anos de experiência em Marketing, eu trabalhava num bar e ele em uma das maiores empresas do mundo. Mesmo reconhecendo o seu mérito, é fato que a nossa origem dempenha claramente um papel vital.

Mais recentemente, me candidatei a uma vaga em uma empresa que costumava representar meu emprego dos meus sonhos. Passei mais de um dia me preparando para a entrevista, que fiz com orgulho em francês. Poucos dias depois, recebi uma resposta negativa com a justificativa que eles estavam em busca de um perfil internacional e adepto à transformação digital.

Fiquei pasma. Não entendi o feedback, pois não somente havia acabado de concluir um certificado em Transformação Digital, como trabalhei toda minha vida com o digital. Logo neste ano, realizei um estágio dentro do mesmo tópico. Com relação ao perfil internacional, eu morei e trabalhei em 3 países e viajei para mais de 25 países do mundo. E ainda falo três idiomas (nada internacional).

O que ficou claro para mim é que ‘perfis internacionais’ são falantes nativos de inglês. Posso morar no exterior por mil anos que não vai contar. Afinal, eu sou brasileira e os meus amigos são africanos, indianos, nigerianos, mexicanos ou argelinos. Viemos de países em desenvolvimento. Não parecemos ser o alvo, o que é triste. Para eles.

É uma pena que alguns recrutadores não consigam ver além do currículo das pessoas. Embora seja essencial, não é tudo. Poucos recrutadores estão realmente interessados em aprender sobre a nossa experiência de vida. Infelizmente, os recrutadores costumam trabalhar ou se tornar semelhantes a robôs de computador que não conseguem que há seres humanos por de trás de cada processo seletivo. Então, o lado mais escuro de viver no exterior é obter respostas negativas?

Claro que não. Isso seria muito superficial. O mercado de trabalho é complicado para todos, ainda mais nesta época do COVID-19. O lado sombrio na minha opinião é que não temos nenhuma prioridade. Seremos os últimos a ter uma chance, independentemente de nossas habilidades e esforços para estar aqui. Às vezes, somos até considerados para uma posição específica envolvendo nosso idioma nativo. Porém, é óbvio que valemos mais do que isso.

É mais fácil falar do que fazer

Embora muita gente fale sobre como a diversidade e o multiculturalismo são diferenciais para dentro do mundo corporativo, na realidade a história é bem diferente. Muitos justificam isso com o medo, protecionismo ou patriotismo. Para mim, é o simples fato de que poucos recrutadores estão interessados ​​em aprender quem é o ser humano nos bastidores

Ser estrangeira nunca foi o paraíso, nem o inferno para mim. Tive que enfrentar muitos obstáculos para melhorar minhas habilidades e ultrapassar meus limites físicos e intelectuais para aprender não apenas o que precisava, mas o que queria. Para falar em 3 idiomas e dizer em voz alta que não tenho medo de cometer erros, desde que você possa me entender.

Não sou Tara Westover, uma gênia que estudou em Harvard e Cambridge (recomendo fortemente o seu livro “Uma Educação”). Sou apenas uma pessoa comum que nunca ganhou nada de graça (além da minha bolsa de jornalismo). Tive que fazer do meu jeito, lutar sozinha pelos meus sonhos. Eu contei sim com a ajuda de muitas pessoas e tive muitas portas abertas. Foram diversos “Sim”, “Aceito”, que me impulssionaram para a frente. E, por todos esses “Sim’s” sou eternamente grata.

Enquanto aguardo o meu próximo “Sim”, enfrento um outro desafio: o de aceitar que sou mais do que suficiente e que estou mais do que preparada para assumir o que mereço, sem nenhuma arrogância. Eu me desafio a deixar de lado esse “complexo de estrangeiro”. E digo o mesmo para todos os alunos internacionais. Nossa jornada até aqui tem sido longa e difícil, mas vai valer a pena.

Espero que este artigo possa ajudar a trazer uma discussão aberta e respeitosa sobre este assunto, que considero urgente. Peço desculpas aos recrutadores que dedicam seu tempo para analisar completamente um perfil e dar aos candidatos um feedback adequado e útil – acredito que você faz uma diferença crucial em nossas vidas.

Obrigado pela leitura. Sinta-se à vontade para deixar qualquer comentário ou compartilhar sua própria experiência.

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